quinta-feira, setembro 1

Podia eu ser um elefante

Lembro-me ...
- do primeiro dia na escola primária: da minha mãe a sair a porta da sala e do sentimento de responsabilidade e orgulho em estar ali tal qual uma pessoa grande;
lembro-me de desde sempre dizer que queria ser advogada como a minha madrinha;
lembro-me dos joelhos esfolados e das compressas sujas de mais uma queda no pátio em volta da escola;
lembro-me da queda da minha professora primária e consecutivo desmaio enquanto pendurava os números numa zona bem alta da sala;
- da reguada (única!) que levei por ter dado um estalo a um miúdo que me tinha apalpado e de sentir uma tremenda injustiça porque a professora não queria acreditar que aquele estalo era totalmente justificado;
- do primeiro dia do 5º ano e da presença do meu pai da aula de apresentação. Presença essa cumprida em todas as aulas de apresentação feitas até ao 10º ano(julgo). Foi neste dia que conheci a Bárbara!;
- de todas as manhãs ter de comer pão com queijo e não gostar;
- de tomar sempre o pequeno almoço em pé, ao lado do meu pai, como ainda hoje ele deve fazer em dias de trabalho;
lembro-me do meu primeiro telemóvel;
lembro-me da primeira desilusão que dei aos meus pais e da consequente tirada desse mesmo telemóvel;
lembro-me de brincar à luta de almofadas com o meu pai;
lembro-me de parar de haver luta de almofadas;
lembro-me da noite em que me devolveu o telemóvel. Em que saltei a chorar para o colo dele a pedir desculpas. A minha mãe que observava a cena veio ter connosco e abraçou-nos aos dois. Lembro-me de ficarmos ali um bom bocado os três abraçados enquanto eu soluçava;
lembro-me da cara de preocupação com que estes dois me deixaram no dia em que fiz exame de condução e da cara de orgulho com que me receberam quando voltei apta a conduzir;
lembro-me do quão chorámos outra vez abraçados os três quando a notícia da colocação em Lisboa saiu e vinha desmoronar todos os meus planos para Coimbra;
- do meu primeiro dia em Coimbra. Da minha primeira aula em Coimbra;
- da primeira vez que tive o João em casa. Da primeira vez que fui a casa do João;
lembro-me de não querer envolver-me, de não querer estar em casa;
- de pedir atenção com a desculpa de querer jogar dominó;
lembro-me da primeira vez em que disse ao João que gostava dele;
lembro-me de ter sempre a minha mãe a encobrir todos as minhas alhadas e de puxar sempre pelas minhas vitórias;
lembro-me de ouvir que talvez não retribua metade do me dão. 
Alguma pessoas.

Os amigos e a família deveriam sempre saber que não precisamos de nada para nos lembrarmos deles, que fazem parte de nós, da nossa história, do nosso crescimento, nas nossas quedas e que, por isso, nem sempre nos lembramos de demonstrar o quão importante são na ação e arquivamento de bons momentos.
Deviam todos os amigos e famílias ser como os meus: os melhores.

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